quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O rei e o rio

Há muito tempo, quando grande parte das florestas do nosso continente ainda nem tinha sido explorada, um marechal, meio branco, meio índio, andava mata adentro estabelecendo uma linha telegráfica em lugares ermos e distantes. Foi desta forma que ele descobriu a cabeceira de um rio. Um rio de águas escuras e rápidas que não constava em mapa algum. Como ninguém sabia para onde ele ia, por onde passava e onde terminava, foi chamado pelo marechal, de Rio da Dúvida.
Um rei, muito aventureiro, que vivia longe daqui, ouviu falar do tal rio e resolveu desbravá-lo. Ele chamou o seu filho, aventureiro como ele, e reuniu um grupo de botânicos, biólogos, historiadores e até um ornitologista, um especialista no estudo das aves, e veio para cá, mas foi desencorajado na mesma hora:
               - Mas que grande absurdo, diziam todos, um rei querendo percorrer um rio que ninguém sabe para onde vai, nem por onde passa?! É muito perigoso! Não, não, não, de jeito nenhum.
Mas o rei, além de ser aventureiro, era também extremamente teimoso e bateu pé.
Convidaram, então, o marechal para embarcar nesta viagem, pois ele era o único que conhecia bem a região. Pronto! O destino tinha acabado de reunir duas pessoas extremamente decididas e completamente apaixonadas pela selva. De um lado, um rei que buscava uma nova aventura, uma espécie de safári com esporte radical e estudos científicos; do outro lado, um marechal meio branco, meio índio, ansioso para continuar mapeando a floresta.
Durante a caminhada longa e penosa até a cabeceira do rio, muitos que pretendiam fazer a travessia desistiram. Do grupo do rei, só restaram duas pessoas para acompanhá-lo: seu filho e o tal ornitologista. E eles, ao lado do marechal e de mais 15 homens valentes, começaram a aventura.
Mas parece que a floresta ficou incomodada com a presença daquelas pessoas estranhas porque preparou para elas armadilhas terríveis: tempestades tropicais, muito calor ou muito frio, cachoeiras enormes. Tinham também os pernilongos, as piranhas, os jacarés, as onças e outros animais que não acabavam mais. E nenhuma comida, nem uma frutazinha sequer a floresta estava disposta a oferecer.
Os dias iam passando, as semanas iam passando, os meses iam passando...
Cada vez mais cansados, cada vez com mais fome e cada vez menos esperançosos, os homens da excursão já estavam imaginando que não haveria saída e que nenhum deles seria capaz de voltar para casa com vida.
Em algumas noites, quando eles encostavam as canoas e se preparavam para dormir, barulhos estranhos vinham da escuridão da mata. Alguns pensavam que eram seres misteriosos da floresta, outros acreditavam que eram feras famintas prontas para atacar e devorar quem aparecesse na frente.
Mas o marechal, ah, o marechal sabia muito bem quem realmente os rondava. Eram os índios. O que o marechal não sabia é que aqueles íncios eram os Cinta-larga, uma tribo violenta e que nunca tinha estado em contato com o homem branco.
De dentro da floresta, eles acompanhavam as canoas que passavam sem nunca se mostrar, eram como sombras escondidas entre galhos de árvores, plantas e bichos.
E foi do meio das matas que os Cinta-larga viram o rei adoecer depois de um acidente grave. Ele delirava tanto que apenas repetia uma frase de um poema famoso:
           - Em Xanadu fez Kubla Kahn um domo majestoso e deleitoso por decreto, em Xanadu fez Kubla Kahn um domo majestoso e deleitoso por decreto, em Xanadu fez Kubla Kahn um domo majestoso e deleitoso por decreto.
Durante vários dias e várias noites, com o presidente delirando e beirando a morte, dois mundos totalmente estranhos um para o outro caminhavam juntos na descida do rio: por terra, osíndios e outro por água, os expedicionários.
Duzentos e trinta e sete dias depois do início da aventura, quando o rio já parecia sem fim, a viagem acabou. O rei e o marechal se tornaram grandes heróis, mas nem eles saberiam explicar como escaparam ilesos dos Cinta-larga.
Um segredo ficou guardado por gerações e gerações da tribo. Enquanto a expedição atravessava a floresta, os índios não chegaram a um consenso. Uns, assustados, queriam atirar suas flechas envenenadas nos intrusos, outros, curiosos, achavam melhor esperar para ver o que aqueles homens queriam, afinal de contas.
Tomaram, então, uma decisão baseada numa regra de ouro da tribo: sem o consentimento geral, nada seria feito.
E foi assim, só assim, que os homens da expedição sobreviveram e puderam contar suas aventuras para seus filhos, que contaram para seus filhos, que contaram para seus filhos e hoje, eu estou aqui, contando esta aventura para vocês.

O rei desta história é, na verdade, o presidente americano Theodore Roosevelt. Em 1914, ao lado do marechal Rondon, chegou às margens do rio e iniciou a aventura que ficou conhecida como Expedição Científica Rondon-Roosevelt. Após a descoberta do curso do rio, ele foi rebatizado de rio Roosevelt.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ferdinando queria falar

           Existiu, há muitos anos, um jovem que quase ficou esquecido na História. Ele se chamava Ferdinando, era um garoto muito aventureiro e cheio de sonhos. O que ele mais gostava de fazer era falar. Quando criança, reunia os amigos e falava sem parar. Tudo que ele aprendia na escola, repetia. Contava o que tinha aprendido para os pais, os avós, os tios, os amigos, até para o papagaio, o periquito e a arara. E olha, nem a arara falava tanto que nem ele.
            Mas um dia, chegou na cidade um homem alto, forte, meio careca que usava uma roupa de general e tinha uma cara de mau. Ele era mau mesmo, era um tirano. Sabem o que é um tirano? É uma pessoa que adora dar ordens e rouba de todo mundo o direito de decidir se concorda ou não com as ordens que ele dá.
            Este tirano chegou na cidade dizendo que a partir daquele dia, todos tinham que obedecer a ele. Ele chegou com um exército que assustava todo mundo.
            Claro que os moradores da cidade ficaram com muito medo. E o medo é uma coisa que nos deixa paralisados. O mesmo medo que nos faz esconder a cabeça debaixo do cobertor à noite, sabe?, também nos faz perder a voz. Foi o que todos na cidade fizeram. Correram para debaixo dos seus cobertores. Sem forças para gritar, se encolheram assustados em suas casas.     
Mas o Ferdinando, logo ele que adorava falar, não conseguiu ficar calado, não. E começou a reclamar. Junto com três amigos que também não estavam nada contentes com aquela história toda, montou um movimento contra o tirano. O Ferdinando e os seus amigos eram muito corajosos e queriam gritar para todo mundo ouvir que aquilo não estava certo, que não podia aparecer alguém assim e sem mais nem menos tomar decisões e mandar em tudo e em todos por ali.
            Estes jovens herois achavam que seria fácil expulsar aqueles invasores, mas eles eram muito jovens e muito poucos e o exército do tirano era forte e bem preparado. Em pouco tempo, o exército conseguiu prender o Ferdinando e os seus amigos. E o tirano deu para eles o maior castigo que poderia existir. Tirou suas vozes. É, a partir daquele dia, o Ferdinando e os seus amigos ficaram sem voz e nunca mais puderam falar nada contra o tirano.
            Durante muitos anos, aquele homem malvado ficou na cidade e ninguém tinha coragem de falar nada. As pessoas foram ficando cada vez mais tristes e mais caladas. De vez em quando, apareciam grupos de jovens como os de Ferdinando, bravos herois que tentavam gritar, mas eles precisavam se esconder para que o tirano não os descobrisse e não tirasse deles a voz.
            Um dia, finalmente, o tirano foi embora da cidade. Já tinha passado muito tempo e ninguém lembrava mais do Ferdinando, dos seus amigos e da coragem que eles tiveram em lutar. Mas o novo prefeito da cidade lembrou e mandou construir um monumento em homenagem a eles para que ninguém nunca mais se esquecesse da bravura e da coragem daqueles jovens. E esta história passou a ser repetida muitas e muitas vezes em forma de lenda, em forma de fábula, até em forma de conto de ninar. E desta forma, Ferdinando e seus amigos recuperaram para todo o sempre suas vozes.

Ferdinando Bidovec foi membro do TIGR, movimento de resistência antifascista esloveno, considerado um dos primeiros da Europa. Em 1930, Ferdinando e mais três amigos foram presos, condenados e executados. O jovem idealista tinha apenas 22 anos.